Crescimento e contradição: o Candomblé e os desafios éticos da autoridade
Os dados do Censo Demográfico de 2022 indicam um crescimento expressivo das religiões afro-brasileiras, especialmente do Candomblé e da Umbanda. Entre 2010 e 2022, o número de pessoas que se identificam com essas tradições mais do que triplicou, passando de 0,3% para 1% da população brasileira — um salto de 233% em pouco mais de uma década. Esse avanço é mais do que estatístico, ele reflete o reconhecimento crescente de formas de espiritualidade enraizadas na experiência afro-diaspórica, fruto de anos de resistência ao racismo religioso e de mobilizações por visibilidade e dignidade. O fortalecimento das religiões de matriz africana não representa apenas a afirmação de um patrimônio cultural inestimável. É também uma resposta histórica às violências de apagamento e perseguição que marcaram sua trajetória no Brasil. Com a ampliação do número de adeptos e da presença pública, surgem novos desafios — não apenas na relação com o mundo externo, mas também no campo das reflexões internas. Em tempos de maior visibilidade, torna-se oportuno — e talvez necessário — abrir espaços de escuta e diálogo sobre como manter vivas essas tradições sem perder de vista compromissos fundamentais com a justiça, a dignidade e a proteção dos mais vulneráveis.
É justamente nesse horizonte de amadurecimento coletivo — em que tradições se afirmam, mas também se interrogam — que certos acontecimentos recentes ganham uma relevância particular. Um caso ocorrido em Belo Horizonte, noticiado no último dia 3 de julho pela Agência Pública, expõe com dureza os dilemas que emergem quando estruturas hierárquicas se sobrepõem ao cuidado com os corpos e com as vidas. Na reportagem assinada pela jornalista Gabi Coelho, veio a público a história de Anna Sant'Ana, jovem praticante do Candomblé, que denunciou ter sido estuprada por Gabriel Lemos Antunes de Souza, integrante do terreiro Nzo Jindanji Kuna Nkosi. A gravidade da denúncia foi intensificada pela resposta da liderança religiosa — em vez de afastar o acusado e acolher a vítima, a direção optou por manter o agressor na comunidade e pressionar a jovem a continuar frequentando os rituais. Segundo a reportagem, a justificativa, expressa em uma das falas dirigidas a Anna, evidencia o modo como certas estruturas podem operar como formas de silenciamento: “Você precisa pensar bem se quer mesmo ficar aqui, porque o candomblé é o mundo e não se tira ninguém do mundo. Eu não tenho poder de tirar o Gabriel.”
A afirmação registrada na fala da liderança religiosa sintetiza um problema que transcende o episódio específico e interpela as religiões como espaços de autoridade simbólica e de formação ética. Ela evidencia como certas interpretações do sagrado podem, quando desvinculadas de critérios éticos e de escuta, se converter em instrumentos de coerção e silenciamento. Quando a fé é mobilizada para justificar a permanência incondicional em uma estrutura, quando a hierarquia se torna opaca à crítica, e quando a autoridade se exerce sem limites nem responsabilização, corre-se o risco de que o espaço religioso — em vez de amparo — se converta em ambiente de dor e opressão. É importante, no entanto, sublinhar que essa é uma tensão presente em diversas tradições religiosas, não sendo de forma alguma um traço exclusivo do Candomblé. Em contextos de poder espiritual, toda comunidade está sujeita a tais distorções sempre que o cuidado com os corpos e as subjetividades é eclipsado por lógicas de obediência. No caso das religiões afro-brasileiras, contudo, sua própria trajetória de resistência ao racismo, de reconstrução da dignidade diante do colonialismo e da violência histórica, pode abrir caminhos singulares. Essa história de enfrentamento e reinvenção oferece uma base potente para refletir, desde dentro, sobre os modos de exercício da autoridade, afirmando a possibilidade de comunidades sagradas que se sustentem no respeito, na escuta e na proteção incondicional dos mais vulneráveis.
Para compreender como certas formas de autoridade se consolidaram no Candomblé, é interessante recuar ao século XIX e considerar a trajetória de uma de suas figuras fundadoras: Marcelina da Silva. Pesquisadores como Lisa Earl Castillo e Luis Nicolau Parés reconstituíram a história dessa mulher nagô, alforriada da escravidão, que fundou a Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador — terreiro matriz de grande importância para o Candomblé. O que torna sua história especialmente reveladora é uma dimensão aparentemente paradoxal: Marcelina foi, simultaneamente, uma mãe de santo de prestígio e proprietária de dezenas de pessoas escravizadas. Muitas de suas filhas de santo eram também suas escravas. Preparavam os alimentos, limpavam a casa, realizavam tarefas domésticas — e, nesse mesmo contexto, recebiam a iniciação nos segredos sagrados do culto aos orixás. Essa sobreposição entre vínculos espirituais e relações materiais de dominação não é um detalhe periférico, ela deixou marcas estruturais na forma como se organizam, até hoje, certas dinâmicas internas dos terreiros, mesmo que inconscientemente. Não por acaso, no caso recente de Belo Horizonte, denunciado pela Agência Pública, as vítimas relataram não apenas abusos sexuais e psicológicos, mas também jornadas de trabalho não remunerado, sob o manto da obrigação religiosa. A autoridade religiosa, nesse processo, foi se entrelaçando a modelos de poder herdados da sociedade escravista: o mais velho comanda, o mais novo obedece; os cargos são vitalícios; os segredos são indevassáveis; a palavra da autoridade não se questiona. Trata-se de um legado ambivalente, que exige ser compreendido com coragem histórica e responsabilidade ética — não para deslegitimar a tradição, mas para reconhecer suas camadas e, talvez, reimaginar seus caminhos.
Isso, contudo, não diminui a importância histórica de Marcelina nem de outras lideranças que, em condições extremamente adversas, foram responsáveis por preservar e transmitir as tradições africanas no Brasil. Muito pelo contrário, reconhecer as contradições de seu tempo é também reconhecer a complexidade e o heroísmo de quem manteve viva uma herança ancestral em meio à violência sistemática da escravidão. Esse reconhecimento, longe de invalidar a tradição, permite compreendê-la em sua profundidade histórica — com suas conquistas, mas também com as marcas do contexto em que se formou. E é justamente essa compreensão que nos convida a refletir, com responsabilidade, sobre estruturas de poder que, embora tenham tido sentido em determinado momento, talvez precisem ser revisitadas à luz dos valores e urgências do presente.
Essa herança histórica também se reflete, de forma sutil mas persistente, por exemplo, nos rituais de iniciação do Candomblé — momentos sagrados marcados por intensa transformação espiritual. Durante o período de reclusão, que pode durar semanas, a pessoa iniciada atravessa um processo de renascimento simbólico, construindo uma relação íntima com seu orixá. Para muitos, essa experiência representa cura, pertencimento e reconexão com raízes ancestrais. No entanto, alguns aspectos desses rituais despertam questões importantes. Em grande parte dos terreiros, sobretudo aqueles que se dizem mais tradicionais, a pessoa que está sendo iniciada — chamada de iaô — submete-se a uma série de regras rígidas: usa colares específicos, anda descalça, não escolhe o que come, fala apenas com os mais velhos, dorme em esteiras e deve obedecer sem questionamentos, sem sequer levantar a cabeça para dirigir o olhar. Sua identidade anterior é momentaneamente suspensa, e sua vontade individual cede lugar a uma lógica de entrega e disciplina. O vestuário, por sua vez, expressa uma hierarquia simbólica — enquanto as recém-chegadas vestem roupas simples e seguem códigos visuais de humildade, as lideranças usam trajes elaborados e têm o direito de calçar chinelos ou sandálias — um privilégio vetado às iniciantes. Essa progressão visual narra uma trajetória espiritual de amadurecimento, mas também reproduz distinções marcadas por signos de autoridade e subordinação.
Estudos têm mostrado que alguns desses elementos rituais remontam simbolicamente ao período da escravidão, funcionando como formas de memória encarnada — uma espécie de ritualização do passado que preserva e reinscreve vivências históricas. A questão que se impõe, contudo, não é a negação do valor espiritual dessas práticas, mas a abertura para perguntas difíceis: em que momento um ritual deixa de ser gesto de consagração para se converter em instrumento de submissão? Como traçar a linha tênue entre a disciplina espiritual, que orienta e fortalece, e a coerção, que fragiliza e fere? Essas são questões delicadas, que não se resolvem com juízos externos ou simplificações, mas que demandam escuta atenta, disposição ao diálogo e sensibilidade ética — tanto por parte das lideranças religiosas quanto dos iniciados e estudiosos comprometidos com essas tradições.
Um elemento recorrente nos relatos de pessoas que vivenciaram experiências problemáticas em terreiros é o medo. Medo de desobedecer às lideranças, de adoecer por transgredir as regras ou questionar a autoridade, ou mesmo de ser punido pelos próprios orixás. Não se trata de um medo difuso ou acidental, mas de um afeto cultivado, muitas vezes, por meio de discursos que combinam orientação espiritual com ameaças implícitas. Frases como “não se discute com o santo”, “os mais velhos ensinaram assim”, “o certo é dessa forma”, “o preceito é esse”, “nossa tradição é essa”, podem operar como mecanismos de controle psicológico, sobretudo quando dirigidas a pessoas em situação de fragilidade emocional ou vulnerabilidade social. Nesse contexto, o sagrado — que deveria libertar — pode se tornar instrumento de cerceamento simbólico, enfraquecendo a autonomia daqueles que buscam justamente acolhimento, sentido e cura.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu propôs um conceito importante para compreender esse tipo de dinâmica: a violência simbólica. Trata-se de formas de dominação que operam de maneira invisível, sendo muitas vezes aceitas pelos próprios sujeitos afetados como naturais ou justas. No campo religioso, essa lógica se manifesta quando discursos espirituais são usados para inibir o questionamento, silenciar conflitos ou inibir a autonomia — mesmo quando o bem-estar das pessoas está em jogo. Por isso, é necessário distinguir entre formas de autoridade espiritual que se legitimam pelo cuidado e pela escuta, e formas autoritárias que recorrem ao sagrado como justificativa para o silenciamento. Essa distinção não visa desqualificar tradições, mas lançar luz sobre os desafios que elas enfrentam em contextos contemporâneos. Casos como o de Belo Horizonte não devem ser lidos como regra nem como exceção absoluta, mas como ocasiões que interpelam as comunidades religiosas a refletirem sobre os modos como exercem o poder, produzem sentido e cuidam de seus membros.
Felizmente, a própria história do Candomblé revela uma notável capacidade de transformação e adaptação aos tempos. Um exemplo expressivo dessa plasticidade é o desaparecimento gradual, a partir da década de 1980, de um ritual conhecido como “compra das iaôs”. Realizada ao final da iniciação, essa encenação consistia em um leilão simbólico em que a recém iniciada era “vendida”, evocando de maneira teatral o tráfico de pessoas escravizadas. Embora frequentemente tratado como uma brincadeira, o ritual acabava por reproduzir, mesmo que de forma alegórica, a lógica da servidão. Com o tempo, essa prática foi sendo silenciosamente abandonada por diversos terreiros, sem necessidade de embates públicos ou cisões dramáticas. O gesto de deixá-la para trás não se deu por imposição externa, mas por uma escolha coletiva e ética. Pesquisadores vêm descrevendo esse processo como uma “amnésia ritual seletiva” — uma forma de esquecimento deliberado, pela qual as comunidades religiosas optam por deixar no passado elementos que já não dialogam com seus princípios atuais. Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma pedagogia do tempo, ou seja, o reconhecimento de que a tradição não se define pela repetição acrítica, mas pela capacidade de escutar o presente sem trair suas raízes.
Essa mesma escuta é o que torna possível, hoje, levantar questões sensíveis sem que isso represente uma ameaça à continuidade ou à integridade do Candomblé. Questionar certas práticas não significa propor a dissolução da religião ou sua descaracterização. Significa reconhecer que nenhuma instituição humana — religiosa ou secular — está imune à necessidade de reflexão e aperfeiçoamento. Repensar não é destruir. Tradição não é sinônimo de repetição cega. O Candomblé possui estruturas hierárquicas importantes para a preservação dos conhecimentos sagrados e para a organização das comunidades. A questão não é eliminar essas hierarquias, mas garantir que elas funcionem de forma ética e protetiva, especialmente em relação aos mais vulneráveis. São questões que interessam não apenas às vítimas de abusos, mas ao próprio Candomblé enquanto projeto civilizatório, ético e estético. Um projeto que nasceu como forma de resistência, sobreviveu à escravidão, enfrentou o racismo institucional, moldou parte fundamental da cultura brasileira e agora cresce como nunca antes na história.